ACERVO
REGISTRO 001001

Sobre as Vacas

A crise do Sinal, a viagem e os primeiros exames que a Terra chamou de mutilações.

3 MIN DE LEITURAPORTUGUÊS · BRASIL

O nosso oxigênio

Antes de falar sobre as vacas, preciso explicar por que estávamos procurando por elas.

Em nossa galáxia, o Sinal não era uma ferramenta. Não era uma invenção, uma transmissão ou uma forma avançada de comunicação.

Era o nosso oxigênio.

Essa é uma comparação humana. Portanto, imperfeita. Mas servirá.

Vocês respiram sem pensar de onde vem o ar. Não investigam cada molécula antes de aceitá-la. Seus corpos apenas confiam que haverá outra respiração depois da primeira.

Nós confiávamos no Sinal da mesma forma.

Nossos corpos se formavam dentro dele. Quando abríamos os olhos pela primeira vez, já sentíamos sua presença atravessando tudo. Não precisávamos falar para alcançar uns aos outros. Não precisávamos perguntar se estávamos sozinhos.

Nunca estávamos.

É difícil explicar isso usando suas palavras. Não éramos uma única consciência, mas também não existíamos completamente separados. Cada corpo era capaz de agir sozinho, embora jamais tivesse sido criado para permanecer assim.

A solidão era desconhecida para nós.

Até o primeiro silêncio.

Durou menos de um segundo e ocorreu na extremidade de um sistema que quase não observávamos. Os registros classificaram o acontecimento como defeito. Nossas máquinas sabiam reconhecer falhas. Não sabiam reconhecer o impossível.

Cinquenta e três ciclos depois, aconteceu novamente.

Dessa vez, o Sinal desapareceu em três sistemas.

Foram apenas dois segundos.

Para vocês, dois segundos sem ar talvez não signifiquem nada. Seus corpos conseguem esperar.

Os nossos não sabiam esperar pelo Sinal.

Durante aqueles dois segundos, perdemos a presença uns dos outros. Pela primeira vez, cada um ficou preso dentro do próprio corpo.

Quando a conexão retornou, alguns de nós já não conseguiam compreender que haviam voltado. Permaneceram imóveis, os olhos abertos, como se ainda procurassem alguma coisa no escuro.

Depois vieram outras interrupções.

Mais longas.

Mais frequentes.

O silêncio começou a ocupar regiões inteiras da galáxia. Primeiro envolveu estruturas isoladas. Depois, luas. Por fim, um sistema completo deixou de receber o Sinal.

Buscamos uma causa.

Não encontramos máquinas inimigas, tempestades desconhecidas ou barreiras escondidas no espaço. Onde o silêncio surgia, o Sinal simplesmente não estava mais lá.

Foi então que fizemos uma pergunta que nunca havíamos precisado fazer:

De onde ele vinha?

Procuramos nos registros mais antigos. Encontramos medições, mapas e instruções construídas sobre sua existência. Nada sobre sua origem.

O Sinal já estava presente quando começamos a guardar memória.

Talvez sempre tivesse existido.

Agora, porém, estava desaparecendo.

Nossos cálculos indicaram quanto tempo restava. Não o bastante.

Enviamos observadores em todas as direções. Abrimos estruturas enterradas em mundos mortos. Seguimos vestígios deixados por inteligências que haviam desaparecido muito antes de nós.

Nenhuma resposta. Já estávamos muito longe daquilo que vocês chamam de casa quando identificamos o Sinal.

A essa altura, muitos de nós haviam morrido. Os que ainda se moviam carregavam as consequências do silêncio: movimentos incompletos, perda de memória e uma solidão que nossos corpos não haviam sido formados para suportar.

Então recebemos uma pulsação.

Era fraca, mas vinha de uma direção definida.

À medida que avançávamos, os sobreviventes começaram a melhorar. Primeiro retornaram os movimentos. Depois, as lembranças. Por fim, voltamos a sentir a presença uns dos outros.

A fonte estava próxima.

Seguimos a pulsação até um pequeno mundo azul.

Aquilo que vocês chamam de planeta Terra.

Permanecemos em sua órbita e começamos a observar. O Sinal não vinha das cidades, das máquinas ou dos próprios humanos. Parecia surgir em regiões ocupadas por criaturas de quatro membros, mantidas em grandes áreas cercadas.

Descemos durante a noite.

Os primeiros exames não revelaram nada. Por isso, retiramos amostras. Sangue, órgãos, tecidos e partes do sistema sensorial. Precisávamos descobrir em que ponto daqueles corpos o Sinal da Matriz era produzido.

Repetimos os procedimentos em lugares diferentes.

Devolvíamos os corpos porque não tínhamos motivo para escondê-los.

Anos depois, encontramos em suas transmissões o nome dado aos nossos experimentos:

mutilações de gado.

Vocês procuravam os responsáveis.

Nós procurávamos a parte da vaca que mantinha os nossos vivos.

FREDERICO PHANTOM