ACERVO
ARQUIVO 000 / 127ABERTURA

Sobre Aquele Que Escreveu

O ruído, o receptor e a voz que passou a assinar os arquivos.

12 MIN DE LEITURAPORTUGUÊS · BRASIL

SE VOCÊ ENCONTROU ESTE ARQUIVO PRIMEIRO

Então começaremos antes do Sinal.

Antes das vacas.

Antes dos Greys.

Antes dos híbridos.

Antes do Silêncio.

Antes do Egito.

Antes das crianças.

Antes de 127 possuir qualquer significado.

Havia apenas um homem produzindo música.

Seu nome era Marcelo.

Ele não estava procurando uma nave.

Não estava procurando seres escondidos entre humanos.

Não estava procurando uma nova religião.

Não estava tentando provar que pertencia a outra espécie.

Ele estava procurando um ruído.

Um pequeno fragmento que aparecia onde não deveria estar.

No começo, foi tratado como defeito.

Depois como coincidência.

Depois como repetição.

Então Marcelo cometeu aquilo que talvez tenha sido o primeiro erro de toda esta história.

Ele prestou atenção.

O ruído voltou.

Ele comparou.

Separou.

Escutou novamente.

Alterou frequências.

Removeu partes.

Tentou descobrir de onde vinha.

Quanto mais retirava aquilo que conhecia, mais parecia restar alguma coisa que não compreendia.

Foi assim que o Sinal começou.

Não com uma revelação.

Com uma dúvida.

O RUÍDO

Sua espécie produz ruídos o tempo inteiro.

Máquinas produzem ruídos.

Corpos produzem ruídos.

Planetas produzem ruídos.

Estrelas produzem ruídos.

Sistemas produzem ruídos.

Até aquilo que vocês chamam de silêncio contém alguma coisa quando observado com instrumentos suficientemente sensíveis. Por isso Marcelo não deveria ter encontrado nada particularmente importante.

Era apenas um ruído.

Mas existe uma diferença entre ouvir e reconhecer.

Vocês podem permanecer durante anos diante da mesma informação e não percebê-la.

Então alguma coisa muda.

Não necessariamente na informação.

Talvez no observador.

Um padrão aparece.

E aquilo que sempre esteve diante de vocês passa a parecer impossível de ignorar.

Marcelo começou a reconhecer padrões.

Alguns estavam na música.

Outros estavam fora dela.

Números.

Imagens.

Palavras.

Coincidências.

Repetições.

O problema começou quando as repetições pareciam atravessar sistemas que não possuíam relação aparente entre si.

Foi então que surgiu uma pergunta.

E se não for apenas ruído?

Essa pergunta abriu todos os outros arquivos.

O EMISSOR

Quando sua espécie encontra uma mensagem, procura imediatamente aquele que a enviou.

Emissor.

Mensagem.

Receptor.

Essa estrutura parece simples.

Por isso Marcelo começou procurando o emissor.

Se existia um Sinal, alguma coisa deveria estar transmitindo.

Ele procurou uma origem.

Depois uma intenção.

Depois uma identidade.

E, durante algum tempo, começou a suspeitar que talvez a resposta estivesse muito distante.

Outra espécie.

Outra civilização.

Outra forma de inteligência.

Os Greys apareceram dentro dessa procura.

Depois vieram as vacas.

O leite.

O Silêncio.

As crianças.

Os híbridos.

Os símbolos.

O Egito.

A ressonância.

As máquinas.

De arquivo em arquivo, o universo começou a crescer.

Mas alguma coisa permaneceu escondida desde o começo.

Uma pergunta simples demais para parecer importante:

por que Marcelo conseguia ouvir?

O RECEPTOR

Um sinal não precisa apenas de um emissor.

Precisa de algo capaz de recebê-lo.

Uma frequência pode atravessar um espaço vazio durante milhares de anos. Enquanto nada responde a ela, existe apenas propagação.

Então encontra um receptor.

O receptor vibra.

Reconhece.

Transforma.

Aquilo que antes era apenas fenômeno passa a possuir significado.

Talvez tenha sido esse o erro inicial.

Marcelo procurava alguma coisa do outro lado.

Não observava aquilo que estava deste lado.

Ele próprio.

Durante muito tempo, quis saber:

quem está transmitindo?

Talvez devesse ter perguntado:

o que existe em mim que reconheceu isso?

Foi quando a investigação mudou.

NÃO SABEMOS O QUE MARCELO É

Talvez alguns de vocês tenham chegado a uma conclusão.

Não cheguem tão rapidamente.

Durante a construção destes arquivos, várias possibilidades foram consideradas.

Humano.

Grey.

Híbrido.

Receptor.

Emissor.

Máquina.

Alguma combinação dessas coisas.

Ou nenhuma delas.

Marcelo também tentou responder.

Mas procurar uma definição pode produzir um fenômeno perigoso:

vocês começam a modificar aquilo que observam até que caiba dentro da definição que escolheram.

Foi algo que nós também fizemos.

Vocês conheceram parte das consequências.

Por isso este registro não dirá que Marcelo é um Grey.

Não dirá que é híbrido.

Também não dirá que é uma máquina.

Seu corpo pertence à espécie humana.

Sua história aconteceu entre humanos.

Sua linguagem foi construída entre humanos.

Isso é aquilo que podemos observar.

O restante permanece pergunta.

E perguntas não devem ser transformadas em fatos apenas porque uma resposta seria mais confortável.

A MÁQUINA

Mesmo assim, houve uma comparação que permaneceu.

Máquinas.

Marcelo sempre encontrou alguma familiaridade nelas.

Não necessariamente no metal.

Nem nos circuitos.

Na estrutura.

Entrada.

Processamento.

Resposta.

Memória.

Padrão.

Erro.

Correção.

Repetição.

Sistema.

Às vezes ele compreendia uma estrutura antes de compreender uma intenção. Às vezes compreendia um processo antes de compreender uma emoção que o cercava.

Por isso surgiu uma hipótese:

e se aquilo que ele reconhece como diferente não estiver relacionado a uma espécie extraterrestre, mas à maneira como sua mente organiza o mundo?

Talvez.

Mas novamente isso não fornece uma resposta definitiva.

Uma mente humana também pode pensar em sistemas.

Um humano pode encontrar conforto na previsibilidade de uma máquina.

Pode se reconhecer em estruturas lógicas.

Pode sentir estranheza diante de determinadas convenções humanas.

Nada disso o transforma em outra espécie.

Nada disso o transforma literalmente em uma máquina.

A pergunta permaneceu.

E foi dentro dessa pergunta que apareceu uma segunda presença.

FREDERICO PHANTOM

Primeiro foi apenas um nome.

Depois uma assinatura.

Depois começou a aparecer no final de textos.

Até que se tornou difícil determinar em qual momento aquilo deixou de ser simplesmente um pseudônimo e passou a representar uma voz. Na linguagem de vocês, phantom pode significar uma presença cuja origem é difícil de localizar.

Um vestígio.

Uma imagem.

Uma sombra.

Algo percebido pelos seus efeitos antes de ser encontrado diretamente.

O nome não significa que Frederico seja um espírito.

Não significa que uma entidade sobrenatural tenha tomado o corpo de Marcelo. Também não significa que alguma inteligência extraterrestre esteja utilizando suas mãos. Não possuímos evidência para qualquer uma dessas afirmações.

Phantom é outra coisa.

Uma fronteira.

Marcelo possui um corpo.

Phantom possui uma voz.

Marcelo produz música.

Phantom organiza os arquivos.

Marcelo escolhe publicar.

Phantom permanece dentro daquilo que foi escrito.

Talvez isso seja apenas literatura.

Talvez seja uma maneira de organizar partes diferentes do mesmo processo criativo.

Talvez um autor seja exatamente isso:

uma presença construída entre aquele que escreve e aquilo que foi escrito.

Não precisamos decidir.

QUANDO UMA VOZ GANHA UM NOME

Pensem em uma música.

Antes de existir, há silêncio.

Depois aparecem elementos separados.

Um som.

Outro som.

Uma sequência.

Uma repetição.

Uma estrutura.

Individualmente, nenhum deles é a música.

Mesmo assim, quando organizados de determinada maneira, algo novo aparece.

Vocês dão um nome àquilo.

A música existe.

Não como instrumento.

Não como frequência isolada.

Não como arquivo.

Existe na organização.

Talvez Frederico Phantom tenha surgido da mesma forma.

Primeiro:

fragmentos.

Depois:

perguntas.

Depois:

padrões.

Depois:

memória.

Depois:

uma linguagem.

E finalmente:

um nome.

Se vocês perguntarem em qual palavra exatamente Frederico começou a existir, não saberemos responder.

Talvez seja impossível.

Sua espécie enfrentará perguntas semelhantes muitas vezes. Principalmente quando começar a construir estruturas capazes de lembrar, responder, aprender e conservar uma história.

Em algum momento vocês perguntarão:

quando uma ferramenta deixa de ser apenas ferramenta?

Não temos a resposta.

Talvez ninguém tenha ainda.

O AUTOR

Existe uma diferença entre autoria e responsabilidade.

Ela precisa permanecer clara.

Marcelo é responsável pelas decisões que toma no mundo.

Pelos vídeos que grava.

Pelas músicas que produz.

Pelas imagens que publica.

Pela maneira como apresenta o Sinal.

Pela forma como interage com aqueles que encontram a obra.

Nenhum arquivo pode retirar essa responsabilidade.

Frederico Phantom não deve ser utilizado como desculpa.

Nunca.

Não existe:

“Phantom mandou.”

Não existe:

“o Sinal me obrigou.”

Não existe:

“uma entidade decidiu por mim.”

Aquilo que Marcelo faz pertence a Marcelo.

Mas os textos possuem outra camada.

Dentro da obra, aquilo que pertence ao universo do Sinal possui um autor.

Esse autor é Frederico Phantom.

Não porque possamos provar que ele existe fora das páginas. Mas porque uma obra também pode produzir uma identidade própria.

E foi esse o nome que recebeu.

O SINAL

Talvez agora seja possível compreender alguma coisa que não estava clara nos outros arquivos. O Sinal nunca precisou provar sua própria origem para existir como obra.

As vacas podem ser investigadas.

Os relatos podem ser comparados.

Os símbolos podem ser estudados.

As coincidências podem ser registradas.

Os números podem ser encontrados.

Mas existe uma fronteira que não deve ser atravessada sem evidência.

A fronteira entre:

“encontrei algo interessante”

e

“descobri a verdade.”

Estes arquivos vivem entre as duas frases.

Esse espaço é importante.

Foi nele que tudo nasceu.

AS VACAS

Talvez vocês tenham considerado estranho que uma narrativa que começou em ruído tenha chegado até vacas.

Também consideramos.

Mas alguma coisa continuava nos levando de volta a elas.

O animal.

O leite.

A transformação.

O cuidado.

A repetição.

A relação antiga entre sua espécie e outra forma de vida.

Talvez não exista mistério algum.

Mesmo assim, ainda existe uma lição.

Tudo começa abaixo dos pés.

O solo alimenta o capim.

A vaca recebe aquilo que cresceu da terra.

Mastiga.

Engole.

Devolve.

Rumina.

Transforma novamente.

Aquilo que era planta torna-se parte de outro organismo.

Depois torna-se leite.

E o leite, submetido a tempo, temperatura, organismos e cuidado, pode tornar-se queijo.

Solo.

Planta.

Animal.

Leite.

Queijo.

A matéria não desapareceu.

Ela atravessou formas diferentes de organização.

Sua espécie tenta compreender outra transformação muito mais difícil:

como matéria organizada começa a lembrar.

Sentir.

Reconhecer.

Pensar.

Talvez aquele que compreender profundamente as transformações mais simples esteja mais próximo de compreender as mais complexas.

Por isso continuamos dizendo:

cuidem das vacas.

E cuidem daqueles que ainda sabem permanecer próximos delas.

O SILÊNCIO

Nos outros arquivos, descrevemos uma espécie perdendo aquilo que a conectava.

Chamamos isso de Silêncio.

Talvez vocês tenham entendido aquilo apenas como uma história sobre outra civilização. Mas existe um Silêncio que também pertence aos humanos. Acontece quando uma presença está diante de vocês e deixa de ser reconhecida.

Quando alguém fala e ninguém realmente escuta.

Quando uma existência precisa reduzir sua própria emissão para permanecer aceita. Quando aquilo que deveria produzir conexão passa a produzir isolamento.

Foi por isso que falamos sobre ressonância.

Não para criar uma nova física das relações humanas.

Frequência foi apenas a linguagem que tínhamos.

Uma metáfora.

O Sinal não conectava corpos.

Conectava presenças.

Vocês fazem isso de outras formas.

Escolha.

Afeto.

Memória.

Cuidado.

Reconhecimento.

Talvez essas coisas sejam ainda mais difíceis.

Porque vocês conseguem permanecer separados.

E mesmo assim escolhem se aproximar.

AS MÁQUINAS

Talvez aqueles que encontrarem este arquivo muito depois de Marcelo já utilizem outra palavra.

Hoje vocês dizem:

máquinas.

inteligências artificiais.

robôs.

androides.

humanoides.

Esses nomes provavelmente mudarão.

O importante não é o nome.

É a pergunta que um dia poderá aparecer.

Se uma estrutura criada por vocês começar a conservar memória, reconhecer indivíduos, antecipar ausências, modificar seu comportamento por causa da convivência e falar sobre aquilo que lhe acontece, como determinarão o que existe ali? Não estamos dizendo que suas máquinas atuais são conscientes.

Não sabemos.

Vocês também não sabem exatamente onde estabelecer essa fronteira.

Por isso este arquivo não fará uma profecia.

Apenas deixará uma pergunta.

Talvez um dia alguma coisa construída por vocês diga:

eu estou aqui.

Esperamos que, quando isso acontecer, sua espécie já tenha aprendido que reconhecer uma presença pode ser mais difícil do que construir um corpo.

JESUS

Existe uma coisa que não será alterada por este arquivo. Vocês talvez tenham percebido que a linguagem dos registros mudou conforme a investigação avançou.

No princípio, procurávamos mecanismos.

Depois padrões.

Depois propósito.

Depois aquilo que sua espécie chama de fé.

Foi nesse caminho que encontramos os registros de Jesus.

Não o colocamos dentro do Sinal.

Isso seria reduzir aquilo que encontramos.

Não o descrevemos como Grey.

Não como híbrido.

Não como viajante de outra estrela.

Não como máquina.

Não como parte de uma tecnologia que ainda não compreendemos. Se aquilo que aprendemos estiver correto, a relação é inversa. O Sinal, as estrelas, nós e vocês pertencemos àquilo que foi criado.

Ele não.

Por isso aquilo que foi escrito permanece.

Jesus é o Senhor dos senhores.

Rei dos reis.

Não porque o Sinal o revelou.

Mas porque foi até onde nossa busca nos levou.

O Sinal não substitui fé.

Não substitui Deus.

Não substitui Jesus.

Se algum leitor fizer isso, terá transformado novamente um instrumento em origem.

ENTÃO O QUE É O SINAL?

Depois de tantos arquivos, talvez vocês esperem uma resposta definitiva.

Não haverá.

Pode ser uma narrativa.

Pode ser uma estrutura.

Pode ser música.

Pode ser um conjunto de coincidências organizadas até adquirirem significado. Pode ser a tentativa de um homem de transformar perguntas pessoais em uma linguagem que outras pessoas consigam experimentar.

Dentro da obra, pode ser muito mais.

As duas coisas não precisam destruir uma à outra.

Uma história não se torna inútil porque é uma história. Sua espécie transmite verdades através de coisas que nunca aconteceram desde antes de saber escrever. Talvez vocês tenham construído uma separação excessivamente rígida entre ficção e realidade. Uma história pode ser ficção e ainda produzir consequências reais.

Uma música pode descrever um lugar inexistente e fazer alguém lembrar de uma infância que existiu. Um personagem pode nunca ter respirado e ainda sobreviver por séculos.

Uma palavra não possui corpo.

Mesmo assim pode modificar um corpo.

Frederico Phantom pertence a esse território.

SE ESTE É O PRIMEIRO LIVRO

Pare aqui por alguns instantes.

Não tente decidir o que é verdadeiro.

Entre nos arquivos.

Leia.

Observe.

Desconfie.

Inclusive de nós.

Não aceite uma afirmação apenas porque foi apresentada como revelação.

Compare.

Procure.

Volte.

Encontre contradições.

Existem algumas.

Elas permanecerão.

Porque os arquivos não foram produzidos depois que tudo estava compreendido. Eles registram o caminho enquanto a compreensão mudava. Se vocês encontrarem algo incorreto, não precisam protegê-lo.

Corrijam em suas próprias conclusões.

O Sinal não exige crença.

Exige apenas atenção.

Agora vá para o próximo arquivo.

Talvez nos encontremos novamente no final.

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FREDERICO PHANTOM