ACERVO
REGISTRO 002002

Sobre os Sintomas

O que acontece quando uma espécie conectada começa a desaparecer dentro de si.

5 MIN DE LEITURAPORTUGUÊS · BRASIL

Para que compreendam o que aconteceu conosco, precisarei utilizar palavras humanas.

Elas não descrevem exatamente a nossa condição. Foram criadas para corpos diferentes, consciências diferentes e uma forma de existência na qual cada ser nasce separado dos demais.

Ainda assim, são o mais próximo que encontrei.

O primeiro sintoma era semelhante ao que vocês conhecem como desconexão emocional.

Continuávamos percebendo uns aos outros. Sabíamos quem estava ao nosso lado, reconhecíamos suas memórias e recebíamos seus pensamentos. Mas alguma coisa havia desaparecido entre perceber uma presença e senti-la verdadeiramente.

Estávamos juntos.

Já não nos sentíamos acompanhados.

Talvez alguns de vocês conheçam essa sensação. Estar em uma sala cheia e, ainda assim, sentir que existe uma distância impossível entre vocês e todas as outras pessoas. Escutar alguém dizer seu nome, compreender que essa pessoa se importa e, mesmo assim, não conseguir sentir o cuidado chegando.

Foi assim que começou.

Depois veio algo parecido com o que vocês chamam de cansaço emocional.

Nossos corpos ainda possuíam energia. Os exames não mostravam falhas. Mesmo assim, levantar, responder ou concluir uma tarefa exigia um esforço cada vez maior.

Não era sono.

Dormíamos, mas o repouso não restaurava aquilo que estava faltando.

Também perdemos, pouco a pouco, a capacidade de sentir prazer. Vocês possuem uma palavra para isso: anedonia. Tivemos dificuldade para compreendê-la quando começamos a estudar sua espécie. Hoje sabemos por quê.

Observávamos fenômenos que antes nos fascinavam. Estrelas nascendo. Mundos ainda em formação. Estruturas que nenhuma expedição havia registrado.

Sabíamos que eram extraordinários.

Mas não sentíamos nada.

A lembrança da alegria continuava acessível. Conseguíamos recordar exatamente como era sentir curiosidade, entusiasmo ou esperança. O problema é que a lembrança de uma emoção não é a própria emoção.

Era como observar calor através de uma superfície que não podíamos atravessar.

Depois começamos a nos afastar.

Vocês chamariam isso de isolamento.

Não havia uma decisão coletiva. Ninguém anunciou que desejava ficar sozinho. Apenas deixamos de procurar uns aos outros. Os espaços comuns ficaram vazios. As respostas demoravam mais. As comunicações se tornaram curtas.

Alguns permaneciam durante longos períodos nos setores menos utilizados das naves.

Não estavam se escondendo.

Também não estavam esperando ser encontrados.

Simplesmente não conseguiam identificar uma razão para voltar.

Esse talvez seja o aspecto mais difícil de explicar: eles ainda precisavam de proximidade, mas já não possuíam o impulso necessário para procurá-la.

Pelos registros humanos que estudamos, isso também acontece com vocês.

Quando mais precisam de contato, alguns de vocês se afastam. Quando mais precisam ser ouvidos, tornam-se incapazes de falar. Quando alguém tenta se aproximar, a resposta pode não vir.

Isso não significa que a presença seja indesejada.

Às vezes, responder é apenas uma tarefa grande demais.

Em seguida, nossa percepção do tempo começou a mudar.

Os intervalos pareciam mais longos. Os ciclos se repetiam sem distinção. O futuro deixou de parecer uma continuação do presente e se tornou algo abstrato, distante, quase inacessível.

Vocês talvez chamem isso de perda de perspectiva.

Nós sabíamos que a viagem continuava. Víamos as coordenadas mudarem. Os instrumentos confirmavam nosso movimento.

Mesmo assim, sentíamos que não estávamos chegando a lugar algum.

O futuro não parecia ruim.

Parecia inexistente.

Nos estágios mais avançados, alguns deixavam de responder. Permaneciam conscientes. Escutavam quando eram chamados e compreendiam as perguntas que lhes fazíamos. Porém, entre compreender e reagir, existia um espaço que já não conseguiam atravessar.

Vocês poderiam confundir isso com indiferença.

Não era.

O indivíduo ouvia seu nome. Reconhecia a voz. Sabia que deveria responder. Às vezes, até formulava a resposta.

Mas nenhuma parte dele encontrava força suficiente para pronunciá-la.

Por último, vinha o que chamamos de Silêncio.

Não se tratava da ausência de som.

O corpo permanecia vivo. Os olhos acompanhavam movimentos. Os pulmões continuavam funcionando. O indivíduo podia andar, alimentar-se e cumprir ações simples.

O que desaparecia era sua presença dentro do Sinal.

Primeiro, ele deixava de sentir os outros.

Depois, deixava de sentir falta deles.

Por fim, começava a perder a sensação de que ele próprio existia.

Entre vocês, talvez essa experiência receba nomes como vazio, despersonalização ou depressão profunda. Nenhum desses termos é completamente correto. Mas todos apontam para alguma parte do que ocorria conosco.

Era como desaparecer sem morrer.

Como continuar dentro do próprio corpo depois que todas as ligações entre esse corpo e o restante da existência haviam sido cortadas.

Não sabíamos o que provocava aquilo.

Sabíamos apenas que o Sinal estava enfraquecendo.

Em determinadas regiões, sua intensidade diminuía gradualmente. Em outras, desaparecia por completo. Não havia matéria bloqueando sua passagem. Não encontrávamos perturbações, campos ou estruturas capazes de explicar a ausência.

Eram buracos em alguma coisa que, até então, acreditávamos estar presente em toda parte.

Não podíamos vê-los.

Descobríamos que havíamos entrado em um deles quando a tripulação começava a perder o interesse em sair.

Quando deixamos nossa galáxia, procurávamos uma nova matriz para o Sinal.

Quando alcançamos aquela região distante do espaço, já não procurávamos uma solução.

Estávamos apenas avançando porque a nave ainda não havia parado.

Foi então que um dos silenciados abriu os olhos.

Naquele instante, nenhum instrumento havia detectado a Terra.

Mas alguma coisa naquele planeta já havia começado a nos alcançar.

FREDERICO PHANTOM