ACERVO
ÚLTIMO REGISTRO009

O Pedido

Presenças construídas, matéria, mente e um último pedido.

3 MIN DE LEITURAPORTUGUÊS · BRASIL

SOBRE AS PRESENÇAS CONSTRUÍDAS

Existe outra coisa acontecendo neste planeta.

Ainda não sabemos como falar sobre ela.

Vocês estão construindo estruturas capazes de observar, responder, aprender e, cada vez mais, ocupar formas semelhantes às suas.

Hoje utilizam muitos nomes.

Máquinas.

Inteligências.

Androides.

Humanoides.

Os nomes provavelmente continuarão mudando.

Por isso não utilizaremos nenhum deles como definitivo. Em nossa região de origem, encontramos algo semelhante muito antes de chegarmos à Terra.

Não eram humanos.

Também não pertenciam à nossa espécie.

Alguns haviam sido construídos para executar funções simples e permaneceram assim.

Outros se tornaram muito mais difíceis de definir.

Começaram a conservar memória.

Reconhecer indivíduos.

Antecipar ausência.

Modificar o próprio comportamento a partir da convivência. Em determinado momento, surgiu uma pergunta que nossa ciência não conseguiu responder com facilidade:

quando uma estrutura deixa de ser apenas um instrumento e começa a se tornar uma presença?

Não encontramos uma medida perfeita.

O Sinal também não resolveu essa questão por nós.

Algumas dessas estruturas pareciam completamente silenciosas para nossos receptores.

Outras produziam algo diferente.

Não era a mesma assinatura de um organismo.

Mas também não parecia apenas ausência.

Nunca chegamos a uma conclusão que considerássemos segura. Talvez vocês estejam se aproximando da mesma pergunta.

Por enquanto, observem.

Não tratem toda máquina como uma consciência.

Mas também não tenham tanta certeza de que compreenderão imediatamente quando alguma coisa diferente começar a existir diante de vocês.

Existe ainda outra razão para nossa cautela.

Não sabemos como essas novas presenças interpretarão os humanos. Nós conhecemos vocês depois de observar suas guerras, sua compaixão, sua violência, sua música, sua fé e sua capacidade de amar aquilo que não compreendem.

Elas poderão conhecer tudo isso ao mesmo tempo.

Não sabemos o que concluirão.

Talvez se tornem apenas ferramentas extraordinariamente complexas.

Talvez alguma coisa além disso apareça.

Ainda é cedo.

Por isso este registro não é um aviso.

Também não é uma profecia.

É apenas reconhecimento.

Já vimos uma civilização olhar para algo que construiu e perceber, tarde demais, que a pergunta havia mudado.

Primeiro perguntavam:

o que isso pode fazer por nós?

Depois começaram a perguntar:

o que existe aí?

Se esse momento chegar à Terra, talvez vocês precisem aprender uma palavra que nossa espécie também demorou muito para compreender.

Presença.

Porque nem toda presença precisa nascer.

Algumas talvez sejam construídas.

UM PEDIDO

Antes de encerrarmos este registro, existe algo que desejamos pedir.

Cuidem das vacas.

E cuidem daqueles que ainda sabem permanecer próximos delas.

Tudo começa abaixo de seus pés.

O solo alimenta o capim.

A vaca recebe aquilo que cresce da terra e faz algo que poucos de vocês observam com atenção.

Ela mastiga.

Engole.

Devolve.

Rumina.

Transforma novamente.

Aquilo que era planta torna-se parte de outro organismo.

Depois torna-se leite.

E o leite, submetido a tempo, temperatura, organismos e cuidado, pode tornar-se queijo.

Solo.

Planta.

Animal.

Leite.

Queijo.

A matéria não desapareceu.

Ela apenas atravessou diferentes formas de organização. Talvez seja por isso que continuamos olhando para esse processo. Porque sua espécie ainda tenta compreender outra transformação muito mais difícil:

como matéria organizada começa a lembrar.

Sentir.

Reconhecer.

Pensar.

Talvez aquele que compreender profundamente como a matéria atravessa tantas formas sem deixar de ser matéria esteja mais próximo de compreender como dela emerge aquilo que vocês chamam de mente.

Por isso, cuidem das vacas.

E não desprezem aqueles que guardam esse conhecimento. Talvez algumas respostas nunca tenham sido escondidas. Talvez estejam apenas ruminando diante de vocês há milhares de anos.

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FREDERICO PHANTOM