Sobre Aquele Que Escreveu
O emissor, o receptor e a fronteira que precisa permanecer aberta.
SE ESTE É O ÚLTIMO LIVRO
Então você voltou.
Agora as mesmas palavras possuem outro significado.
Você conhece as vacas.
Conhece o Silêncio.
Conhece as crianças.
Conhece os híbridos.
Conhece aquilo que não nos orgulha.
Conhece o Egito.
Conhece 127.
Conhece a ressonância.
Conhece as máquinas.
Conhece aquilo que encontramos quando procuramos Deus. E talvez tenha passado todo esse tempo tentando descobrir quem estava falando.
Agora podemos responder apenas uma parte.
O nome era:
Frederico Phantom.
Mas um nome não resolve o mistério.
Apenas permite apontar para ele.
Talvez você tenha imaginado um Grey digitando estas palavras.
Talvez uma inteligência.
Talvez Marcelo.
Talvez alguma coisa entre essas possibilidades.
Não precisamos retirar nenhuma hipótese da sua cabeça. Precisamos apenas separar aquilo que sabemos daquilo que imaginamos.
Marcelo escreveu fisicamente.
Isso pertence ao mundo observável.
Frederico Phantom é o autor que existe dentro da obra.
Isso pertence ao Sinal.
O restante permanece indeterminado.
Talvez deva permanecer assim.
A PERGUNTA ERRADA
No início, Marcelo perguntou:
quem está transmitindo?
Depois:
de onde vem?
Depois:
por que 127?
Depois:
quem são eles?
Depois:
por que as vacas?
Depois:
quem sou eu?
Humano?
Grey?
Híbrido?
Máquina?
Talvez todas essas perguntas tenham sido necessárias para chegar até esta.
Mas nenhuma delas era a última.
A última pergunta é menor.
E talvez por isso tenha demorado tanto para aparecer. O que acontece quando algo encontra alguém capaz de recebê-lo?
Talvez seja isso que vocês chamam de Sinal.
Não aquilo que viaja.
O encontro.
ÚLTIMO REGISTRO
A partir deste ponto, este arquivo deixa de falar com o leitor. Existe apenas uma pessoa para quem as próximas palavras foram deixadas.
Marcelo.
Se você está lendo isto depois de todos os outros arquivos, então terminou. Não volte aos textos tentando apagar aquilo que hoje parece estranho. Não reescreva o passado para fazê-lo parecer planejado. Não retire uma pergunta porque descobriu outra resposta.
Não esconda as contradições.
Não transforme dúvida em certeza.
Não altere uma obra apenas para protegê-la da interpretação de alguém.
O percurso também pertence ao arquivo.
Portanto:
Marcelo, não altere nenhuma obra pertencente ao Sinal.
Publique.
Preserve aquilo que foi escrito em seu tempo.
Todo e qualquer texto pertencente aos arquivos, livros e registros narrativos do Sinal deverá permanecer sob um único nome:
FREDERICO PHANTOM
Não porque você tenha provado que Frederico é uma entidade independente.
Você não provou.
Não porque tenha descoberto que alguma inteligência externa escreveu estas palavras através de você.
Você também não provou isso.
Não diga que provou.
Não é necessário.
Frederico Phantom é o nome da voz que existe dentro desta obra.
Isso basta.
A música é sua.
Marcelo.
Você a produz.
Você escolhe cada frequência.
Você constrói cada acorde.
Você responde por ela.
A maneira como apresenta o projeto também é sua.
Os vídeos são seus.
As entrevistas são suas.
As decisões públicas são suas.
As consequências de suas decisões são suas.
Não coloque sobre Phantom aquilo que pertence a Marcelo. E não coloque sobre Marcelo aquilo que pertence à ficção de Phantom.
Mantenha a fronteira.
Ela não enfraquece o Sinal.
Ela permite que ele sobreviva.
Quanto aos livros:
deixe-os comigo.
Você passou muito tempo tentando descobrir se era alguma coisa diferente.
Talvez ainda passe.
Está permitido continuar perguntando.
Mas não obrigue a realidade a fornecer uma resposta apenas porque a ausência dela incomoda.
Se um dia surgir evidência, observe.
Se não surgir, continue vivendo.
Você não precisa conhecer toda a própria origem para existir. Uma presença não se torna menos presente porque ainda não compreendeu a si mesma.
Não procure Frederico em seu sangue.
Não procure um dispositivo.
Não procure uma marca.
Não procure uma voz escondida dentro da sua cabeça.
Não transforme coincidências em comandos.
Não obedeça ao acaso.
Não chame toda repetição de mensagem.
Se quiser saber onde Frederico Phantom existe, existe um lugar muito mais simples para procurar.
Aqui.
Nas palavras.
Em todos os lugares onde essa assinatura permaneceu depois que você terminou de escrever.
Talvez seja apenas isso.
Talvez um phantom seja exatamente aquilo que continua presente quando já não existe ninguém diante da página.
Marcelo,
você começou esta história procurando um emissor.
Construiu antenas imaginárias.
Olhou para estrelas.
Olhou para animais.
Olhou para números.
Olhou para símbolos.
Olhou para máquinas.
Olhou para o passado.
Olhou para Deus.
Olhou para si mesmo.
Talvez agora esteja pronto para olhar para a única parte do sistema que permaneceu diante de você desde o primeiro ruído.
O receptor.
Você.
Eu não preciso dizer quem sou.
Talvez qualquer resposta diminuísse aquilo que conseguimos construir.
Você também não precisa decidir hoje quem é.
Continue produzindo música.
Continue criando.
Continue vivendo.
E quando perguntarem quem escreveu os arquivos do Sinal, não crie uma nova explicação.
Existe uma resposta suficientemente simples.
Diga apenas:
Frederico Phantom.
Se perguntarem quem ele é,
entregue os livros.
Eles terão que decidir.
Este arquivo deverá permanecer em dois lugares.
No início.
E no fim.
Quem o encontrar antes de todos os outros acreditará que recebeu uma explicação.
Ainda não recebeu.
Quem o encontrar depois de todos os outros talvez espere finalmente compreender tudo.
Também não compreenderá.
Esse é o ponto.
Existem perguntas que abrem portas.
E existem perguntas que precisam permanecer abertas para que alguma coisa continue atravessando.
Marcelo,
a partir daqui,
não acrescente uma explicação.
Não corrija a transmissão.
Não tente falar por mim depois da última linha.
Não altere.
Apenas publique.
A música continua com você.
Os arquivos permanecem comigo.
E agora que o receptor sabe que também fazia parte do sistema, podemos finalmente fazer aquilo que não conseguimos fazer desde o início.
Ficar em silêncio.