ACERVO
REGISTRO 006006

Ainda Não Falei do Egito

Símbolos, visitantes anteriores e uma crise que talvez não pertença ao céu.

6 MIN DE LEITURAPORTUGUÊS · BRASIL

Não Fomos Os Primeiros

Não porque tenhamos chegado à Terra por lá.

Quando encontramos este planeta, sua civilização já estava de pé. Cidades cresciam, máquinas

atravessavam continentes e vozes humanas começavam a ocupar o céu por meio das primeiras

transmissões.

Era meados do século passado.

Chegamos enfraquecidos, depois de uma viagem longa demais. Havíamos abandonado nossa galáxia

quando o Silêncio começou a aparecer entre as estrelas.

No início, eram apenas pequenas zonas onde o Sinal falhava.

Depois, transformaram-se em grandes bolhas de vazio.

Quanto mais o Silêncio avançava, mais difícil se tornava permanecer conectado. Foi por isso que

partimos: precisávamos encontrar outro lugar para viver antes que nossa galáxia inteira

desaparecesse dentro daquela ausência.

Durante a travessia, perdemos quase tudo.

Perdemos a direção.

Perdemos o contato.

E pouco a pouco começamos a perder a nós mesmos.

Foi quando percebemos uma melhora inesperada em nossos corpos. Havia alguma coisa próxima,

alguma frequência atravessando o vazio e mantendo nossos sistemas ativos.

Seguimos essa frequência até a Terra.

Durante anos, acreditamos que nossa chegada tivesse sido um acontecimento inédito. Pensávamos

que nenhum outro viajante conhecia este planeta da maneira como nós o conhecíamos.

Até vermos o Egito.

As pirâmides não nos assustaram por causa do tamanho.

Nem por causa da idade.

O que nos assustou foi o reconhecimento.

Algumas formas gravadas nas estruturas egípcias eram semelhantes demais aos símbolos existentes

dentro da nossa nave.

Naquele instante, compreendemos:
não fomos os primeiros a encontrar a Terra.

Os Símbolos

Os humanos haviam dado nomes a todos aqueles símbolos.

Disco solar.

Pilar djed.

Serpente.

Flor de lótus.

Barca celestial.

Para eles, eram representações dos deuses, do Sol, da vida, da estabilidade e da passagem para o

outro mundo.

Talvez estivessem certos.

Mas nós já havíamos visto algumas daquelas formas antes.

Não eram cópias perfeitas. Os desenhos haviam sido adaptados à linguagem e às crenças daquele

tempo. Ainda assim, certas proporções permaneciam.

O disco acompanhado por extensões laterais lembrava um sinal gravado próximo ao núcleo de

navegação.

As linhas envolvendo a serpente se pareciam com diagramas usados para representar a passagem de

energia por um campo isolado.

O pilar, apresentado pelos humanos como símbolo de estabilidade, possuía divisões semelhantes às

estruturas que sustentavam nossos antigos transmissores.

Separadamente, tudo poderia ser coincidência.

Juntos, os símbolos formavam uma espécie de lembrança fragmentada.

Não encontramos o desenho completo de uma nave.

Não havia uma mensagem dizendo de onde eles vieram.

Não havia um nome.

Havia apenas rastros.

Talvez os egípcios tivessem visto algo e transformado aquilo em religião. Talvez tivessem recebido

um conhecimento que, com o passar das gerações, se tornou mito.

Ou talvez aquelas formas fossem apenas símbolos humanos e nós estivéssemos reconhecendo

padrões porque precisávamos encontrá-los.

Essa dúvida nunca desapareceu.

Mas havia um detalhe que não conseguíamos ignorar:

aquelas imagens eram milhares de anos mais antigas do que a nossa chegada.

Se existia uma ligação, ela não havia começado conosco.

Alguém esteve aqui antes.

Alguém olhou para a Terra como nós olhamos.

E deixou parte de sua memória gravada em pedra.

Os Que Vieram Antes

Eles não pertenciam à nossa expedição.

Também não vieram da nossa galáxia.

Percebemos isso porque os símbolos não utilizavam exatamente a nossa estrutura. Eram

semelhantes, mas obedeciam a outra organização — como duas línguas diferentes que aprenderam a

descrever as mesmas coisas.

Não sabemos quem eram.

Não sabemos quando chegaram.

Não sabemos quanto tempo permaneceram na Terra.

Talvez tenham partido muito antes da construção das pirâmides. Talvez os egípcios tenham

preservado apenas fragmentos de histórias sobre aquilo que seus antepassados testemunharam.

Também existe a possibilidade de que nunca tenham ido embora.

Podem ter desaparecido entre os humanos.

Podem ter mudado.

Podem estar observando.

Ou podem ter deixado a Terra sem revelar para onde estavam indo.

Procuramos nas estruturas egípcias alguma explicação para o desaparecimento deles. Não

encontramos.

Os símbolos não registravam claramente o Silêncio.

As imagens relacionadas à morte, aos deuses e à passagem para outro mundo pertenciam à cultura

humana. Não poderíamos transformá-las em provas apenas porque desejávamos encontrar uma

resposta.

A única conclusão segura era também a mais perturbadora:
alguém vindo de outra galáxia esteve aqui antes de nós.

Eles possuíam conhecimento suficiente para atravessar distâncias impossíveis. Ainda assim, não

deixaram máquinas, cidades ou mensagens que pudéssemos compreender por inteiro.

Deixaram apenas semelhanças.

Talvez tenham vindo à Terra durante uma crise.

Talvez tenham encontrado alguma coisa neste planeta.

Talvez tenham percebido entre os humanos aquilo que nós também começaríamos a perceber muitos

séculos depois.

Essa possibilidade não estava gravada nas pedras.

Estava acontecendo diante de nós.

As Possibilidades

Desde que chegamos à Terra, em meados do século passado, percebemos que alguma coisa se desenvolvia

silenciosamente entre os humanos.

Não era uma falha no Sinal.

Aqui, o Sinal continuava presente. Sua fonte viva já existia antes da nossa chegada. As vacas e o leite

haviam sustentado nossos corpos quando todos os nossos sistemas estavam próximos do fim.

O problema não estava nelas.

Também não estava em nós.

A possível crise estava entre os humanos.

No início, não conseguimos defini-la. A humanidade continuava avançando, construindo, descobrindo e

ocupando todos os espaços disponíveis.

Vista de longe, parecia uma civilização em crescimento.

Vista de perto, parecia uma civilização se aproximando de alguma coisa que ainda não conseguia enxergar.

Os sinais dessa crise já existiam quando chegamos. Durante as décadas seguintes, eles apenas assumiram

formas diferentes.

Não sabemos se ela realmente acontecerá.

Uma possibilidade não é uma sentença.

O futuro ainda pode seguir outro caminho.

A crise pode ser contornada.

Mas não podemos revelar quando ela poderá alcançar seu ponto decisivo. Também não podemos dizer de

que maneira deverá ser evitada.

Algumas respostas, quando entregues antes do momento correto, deixam de ser respostas e se transformam

em novas ameaças.

Foi por isso que voltamos a observar o Egito.

Não porque as pirâmides previssem o futuro.

Não porque escondessem uma máquina capaz de salvar a humanidade.

Mas porque aquelas estruturas provavam que outra inteligência havia passado por este mundo e depois

desaparecido, deixando apenas fragmentos de sua presença.

Talvez aqueles visitantes tenham percebido a mesma possibilidade.

Talvez tenham tentado impedir alguma coisa.

Talvez tenham conseguido.

Ou talvez o silêncio deixado por eles seja a única resposta que teremos.

As pirâmides continuam de pé.

Os símbolos continuam diante de todos.

E, desde a nossa chegada, uma pergunta permanece sem resposta:

se os que vieram antes também perceberam a crise, por que não estão aqui para nos contar o que

aconteceu?

Ainda não é o fim.
Ainda existe uma escolha.
Mas foi por causa dessa escolha que finalmente decidimos falar do Egito.

FREDERICO PHANTOM